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Fim da infância
A sociedade assiste, atônita, a uma surpreendente patologia comportamental:
o desaparecimento da infância e a supressão forçada da inocência. O
fenômeno, estimulado por certos programas da televisão aberta, é preocupante.
A infância, infelizmente, está desaparecendo como fase natural da vida humana.
Já não vemos crianças entretidas em brincadeiras que faziam parte da paisagem
urbana das nossas cidades. A imagem, tão própria dessa fase da vida, foi sendo
substituída pela cena de meninas de 4 anos dançando com gingados
"eróticos" sobre o gargalo de uma garrafa. Desenhos animados, marca
de um passado não tão distante, foram sendo substituídos pelo requebro das
popozudas, guindadas à condição de ídolos e tiazinhas das crianças e
adolescentes. Com o apoio das próprias mães, entusiasmadas com a perspectiva
de um bom cachê, inúmeras crianças estão sendo prematuramente condenadas a
uma vida 'adulta' e sórdida. Privadas da infância, elas estão se comportando,
vestindo, consumindo e falando como adultos. A inocência infantil está sendo
impiedosamente banida pela indústria do entretenimento.
Inúmeras causas têm sido levantadas para explicar o preocupante
desaparecimento da natural fronteira entre a infância e a vida adulta. É
difícil acreditar que apenas diferenças sociais, níveis de renda ou quaisquer
explicações socioeconômicas sejam suficientes para entender essa deformação
social. Na verdade, a formação por etapas, que só se adquire na família, nos
livros e nas escolas, foi substituída pelo "aprendizado" instantâneo
e moralmente insensível da televisão.
Atualmente, não obstante as queixas de inúmeros telespectadores, em qualquer
horário as crianças têm acesso aos piores quadros de violência e
degradação. Hoje, graças ao impacto da TV, qualquer criança sabe mais sobre
sexo, violência e aberrações do que qualquer adulto de um passado não tão
remoto. Não é preciso ser psicólogo para que se possa prever as distorções
afetivas, psíquicas e emocionais dessa perversa iniciação precoce. Por isso,
a multiplicação de descobertas de redes de pedofilia não deve surpreender
ninguém. Trata-se das conseqüências criminosas da escalada de erotização
infantil promovida por certa programação da TV. O veneno contra a infância
vai sendo pouco a pouco instilado em alguns programas de auditório. Assistimos
a um verdadeiro aliciamento infantil.
As campanhas de prevenção da Aids e da gravidez precoce batem de frente com
inúmeros quadros da grade vespertina que fazem da exaltação das fantasias
eróticas uma alavanca de audiência. A iniciação sexual precoce, o abuso
sexual e a prostituição infantil, que, cada vez mais, ocupam espaço no nosso
noticiário, são, insisto, o resultado da cultura da promiscuidade disseminada
pela irresponsabilidade da mídia eletrônica.
É triste, para não dizer trágico, ver o Brasil ser citado como oásis seguro
e excitante para os turistas que querem satisfazer suas taras e fantasias
sexuais com crianças e adolescentes. Reportagens denunciando redes de
prostituição infantil, algumas promovidas com a cumplicidade ou até mesmo com
a participação de autoridades públicas, crescem à sombra da impunidade. Sem
nenhum moralismo, creio, caro leitor, que chegou a hora de uma guinada.
Fala-se muito, e com razão, da corrupção que castiga a sociedade. Mas já
não é possível ocultar a raiz do câncer que, lentamente, vai tomando conta
do organismo social: a crise ética e a falta de limites do negócio do
entretenimento. É preciso repensar os caminhos da TV brasileira. O
telespectador não quer, por óbvio, uma TV de água benta. Quer uma
programação de qualidade. Mas a qualidade não se esgota na competência
técnica. Exige também responsabilidade social. A televisão brasileira precisa
receber um choque de responsabilidade.
(Carlos Alberto Di Franco)